«A Poesia», de Sophia de Mello Breyner Andresen
A poesia = ao que é +
O que não é
Sendo o que é +
O seu contrário
Número ambivalente
Negativo e positivo
Posto
Dos dois lados do zero
Ela se devora
E cresce em dois sentidos
Múltipla de si mesma
Irracional mas demonstrável
Racional mas indemonstrável
Quimicamente pura
E carregada de fermentações
Repetida sem limite
Nos espelhos opostos
Para exaurir a alma
Que o mundo não domina
E atenta sempre à mesma unidade do universo.
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner – Geografia. Lisboa: Edições Salamandra , 1990, p. 79.
De acordo com a filosofia hermética, que lhe subjaz, «O Louco» é o único Arcano que representa um estado «quimicamente» puro e carregado «de fermentações»[1], tal como a ‘Poesia’, neste poema de Sophia, que dispensa qualquer tipo de análise literária. As palavras do poema falam por si. Na realidade, a Grande Obra é algo que se pode viver, mas dificilmente analisar, sem destruir o seu sentido[2]. «O Louco» corresponde, em suma, a esta incapacidade da linguagem humana para exprimir o que é «irracional mas demonstrável» e «racional mas indemonstrável», porque «cresce em dois sentidos» e «se devora» – como afirma Sophia, acerca da ‘Poesia’, no poema acima citado. Neste sentido, «O Louco» também corresponde ao Ouroboros (cf. AQUI)
[1] Valentin Tomberg (1900-1973), seguidor de Rudolf Steiner, faz corresponder aos 22 Arcanos do Tarot 22 exercícios espirituais, como meios de meditação. Escreve: «Ein Arkanum ist ein „Ferment“ oder ein „Enzym“, dessen Anwesenheit das geistige und seelische Leben des Menschen anregt. Und Symbole sind die Träger diese „Fermente“… Die Großen Arkana des Tarot sind in diesem Sinne eine vollständiger, ganz unschätzbarer Schule der Meditation, der Studien und der geistigen Anstrengungen, d.h. eine Mustergültiger Schule der Kunst des Lernens»: Der Anonymus d’autre tombe: Die Großen Arcana des Tarot. Meditationen. Basel 1983 2f. Apud WEHR, Gerhard – Gnosis, Gral und Rosenkreuz: Esoterisches Christentum von der Antike bis heute. Köln: Anaconda, 2007, p. 402.
[2] Segundo R. Guénon, Aperçus sur l’initiation, p. 125, o termo Mistério possui vários sentidos. No seu sentido mais profundo, o mistério é o inexpressável, aquilo que apenas pode ser contemplado em silêncio. «Eis o mistério dos filósofos, e é sobre ele que os nossos pais nos fizeram jurar de não o revelar nem divulgar, porque possui uma especificidade e uma energia divinas (Korè Cosmou, livro hermético, trad. A.J. Festugière, R.H.T.)»: Cf. RIFFARD, Pierre – Dicionário do esoterismo. Trad. de Maria João Freire. Lisboa: Teorema, 1999, p. 241.
Sobre ESOTERISMO, na obra de Sophia Andresen (cf. AQUI)
