Tarot: «O Louco» e o Arcano XIII
«On a beaucoup discuté de l’origine réelle du Tarot. Certains l’ont cherchée chez les Bohémiens; d’autres ont opté pour l’ancienne Egypte et atribué à Thoth lui-même la paternité des Arcanes. […] Le Tarot a-t-il toujours été utilisé à des fins divinatoires? Le symbolisme de ses figures a-t-il emprunté primitivement quelque chose à la kabbale, comme ont cru pouvoir l’affirmer les occultistes du XIXe siècle (Papus, Stanilas de Guaita, O. Wirth)? Nous n’en savons rien et nous garderons bien d’affirmer ou d’infirmer. […] Ce qui est indéniable c’est que tel quel, le Tarot constitue un ensemble de symboles en relation évidente avec une vision ésotériques particulière.»
MASSON, Hervé – Dictionnaire initiatique et ésotérique. Paris : TrajectoirE. [cop. 2003 Éditions Trajectoire], p. 253.
Dos Arcanos Maiores do Tarot, há um Arcano – «O Louco» («Le Mat») – que chama espontaneamente a nossa atenção, se deitarmos um olhar rápido sobre os vinte e dois, no seu conjunto. E chama a nossa atenção, principalmente, por dois motivos: pelo que imageticamente representa, e pelo facto de não lhe ter sido atribuído um número, como acontece com os restantes Arcanos. Melhor dizendo, por nele não haver qualquer número inscrito. Pois, na realidade, dependendo do ponto de vista, ele tanto pode ser o Arcano ZERO como o Arcano XXII. Porquê? Porque «O Louco» corresponde tanto ao início como ao fim de um ciclo. Um ciclo que começa com o Arcano I, «Le Bateleur» (o alquimista no início da Obra), e acaba com o Arcano XXI, «Le Monde» (a realização da Grande Obra).
Contudo, «O Louco» ocupa uma posição exata na Roda da Fortuna, ou seja, em conformidade com a expressão esquemática do ciclo evolutivo. E afirmamos ‘exata’, porque, ao contrário do que se poderia pensar, «O Louco» ocupa na Roda uma posição concreta, direcionada no sentido de «Le Bateleur» que está à sua esquerda, que é o mesmo que dizer: à direita de quem o observa. E aqui começa a primeira dificuldade. Qual das duas designações é a correta, em relação à direção que «O Louco» segue? a “direita” ou a “esquerda”? A resposta depende, logicamente, da nossa posição interior em relação ao observado. O que de concreto se pode dizer é que «O Louco» ocupa uma posição excecional na Roda. Já que só mais um Arcano se apresenta direcionado desta forma: aquele a que foi atribuído o número XIII – mas que é o único que não tem nome. No entanto, se o observarmos, não nos será difícil de entender, no curto espaço de um instante, o que ele significa… designadamente, a Morte.
Esta morte, porém, não corresponde aqui ao ato de morrer. Corresponde, antes sim, à passagem de um estado a outro estado[1]. Por fim, devemos dizer que este Arcano (número XIII e sem nome) e o Arcano que estamos a analisar («O Louco» e sem número) ocupam posições diametralmente opostas na Roda, ou seja, na expressão esquemática do ciclo evolutivo. Sendo que, de acordo com os filósofos herméticos, a vida é eterna, mas cíclica, estando todo o ser vivo sujeito a uma evolução espiritual que assenta na teoria da transmigração das almas (metempsicose[2]). Esta teoria tem uma base natural, no sentido literal do termo, pois se baseia no princípio cíclico da vida, tal como ele pode ser observado empiricamente.
Assim como o Ouroboros[3], «O Louco» simboliza, simultaneamente, a espiral do tempo e o caos primordial da estagnação. Por isso, não lhe corresponde um número concreto e definido na Roda. Não pode corresponder, porque «O Louco» é atemporal[4]. O Arcano número XIII, pelo contrário, ocupa uma posição temporalmente bem definida na Roda. É uma posição limite, que, como já vimos, marca a passagem de um estado a outro estado. Mais propriamente: a passagem do estado que representa o Arcano XII («Le Pendu»[5) ao Arcano XIV («La Temperance»[6]).
[1] Este Arcano significa, essencialmente, transformação, reincarnação e morte iniciática. Cf. DICTA et FRANÇOISE – Tarot de Marseille. Paris: Mercure de France, 1998, p. 85-88.
[2] «La Métempsycose des anciens Philosophes n’était autre que les transmutations de la nature, prises dans leur vrai sens physique»: DICTIONNAIRE mytho-hermétique. Par Dom Antoine-Joseph Pernety. Paris : Delalain, 1787, p. 502.
[3] «C’est le serpent cosmique qui se mord la queue, symbolisant ainsi ce qui n’a ni commencement, ni fin. Pour les alchimistes il figurait l’unité de la matière ; pour les Occultistes il représente le fluide universel et la rénovation perpétuelle de la nature. En réalité le serpent Ouroboros exprime à la foi l’Univers infini et le Grand Œuvre. Un est le serpent, celui qui a le venin (le chaos, le dissolvant) selon le double signe (le mercure). Mais ce chaos figuré par le serpent Ouroboros contient à l’état indifférencié toutes les potentialités, il est cette Chose unique qui contient en elle les quatre éléments et les domine. En ce sens il est la matière première de l’Œuvre, comme il en est, idéalement, la fin dernière»: MASSON – Dictionnaire initiatique, p. 203.
[4] Este Arcano corresponde à Grande Obra e significa, essencialmente, o ser humano enquanto viator, errância, procura de verdade e de unidade. Cf. DICTA et FRANÇOISE – Tarot, p. 117-120.
[5] Este Arcano corresponde a um estado de Provação, de sofrimento que desperta para as realidades espirituais, extra-mundanas. Significa, essencialmente, incomunicação, imobilidade e egocentrismo. Cf. DICTA et FRANÇOISE – Tarot, p. 81-85.
[6] Este Arcano corresponde a um estado de Equilíbrio entre o espírito e a matéria. Significa, essencialmente, comunicação, mobilidade e altruísmo. Cf. DICTA et FRANÇOISE – Tarot, p. 89-92.
