A “faca” e o fogo da revolta, na obra O CRISTO CIGANO


No extrato do conto «Praia», abaixo citado, Sophia Andresen compara a dor provocada pelo corte de uma “faca” à dor sentida por quem se revolta contra a “imperfeição”. É uma dor – afirma – que “arde” como “fogo” na “alma” dos “revoltados”, “sem se consumir”:


Deviam ser ou resignados ou revoltados. Espero que fossem revoltados é menos triste. Um homem revoltado, mesmo ingloriamente, nunca está completamente vencido. Mas a resignação passiva, a resignação por ensurdecimento progressivo do ser, é o falhar completo e sem remédio. Mas os revoltados, mesmo aqueles a quem tudo – a luz do candeeiro e a luz da Primavera – dói como uma faca, aqueles que se cortam no ar e nos seus próprios gestos, são a honra da condição humana. Eles são aqueles que não aceitam a imperfeição. E por isso a sua alma é como um grande deserto sem sombra e sem frescura onde o fogo arde sem se consumir [sublinhados nossos].

Sophia de Mello Breyner Andresen – Contos Exemplares.

A imagem da “faca” – que no trecho acima citado é comparada ao fogo da revolta – também surge, reiteradamente, no poema dramático O CRISTO CIGANO, de Sophia Andresen. Apresenta-se aí como pano de fundo, criando o ambiente trágico que envolve a relação triádica que se estabelece entre as personagens atuantes – “os homens escuros”, “o escultor” e “o cigano” -, e determinando o desenrolar da ação, que desfecha no assassínio do cigano, perpetrado pelo escultor.


Assim como no conto «Praia» – que integra a antologia Contos Exemplares -, também no poema dramático de Sophia a imagem da “faca” simboliza o fogo da revolta de quem não aceita a imperfeição. Ou seja: simboliza a revolta da própria Poeta. Porque o “verdadeiro poeta é sempre um resistente. Mas o falso poeta, sejam quais forem as causas que diz defender, é sempre um conivente” – como afirma Sophia de Mello Breyner Andresen numa entrevista concedida a O Tempo e o Modo, em 6 de junho de 1963 (cf. AQUI).

Daí que, na obra O CRISTO CIGANO, Sophia Andresen contraponha à atitude do “escultor” – que ignora a sua missão social, enquanto artista, obedecendo ao mandamento dos “homens escuros” (cf. AQUI) – a sua própria posição de resistência, enquanto Poeta.


Fernanda Alves Afonso Grieben

fe@revisitar.com

Sou pintora, originária do Norte de Portugal, mas resido atualmente na Alemanha. Também gosto de escrever textos literários, sobretudo para a infância. Faço-o, principalmente, para mim própria. No entanto, alegro-me sempre que encontro uma possibilidade de partilhar a minha escrita com as demais crianças, de todas as idades. Sou Mestre em Teologia (UCP); Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas – variante de Estudos Portugueses e Doutorada em Estudos Portugueses, na especialidade de Literatura Portuguesa (UAb).

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