O escultor: um anti-herói, na obra O CRISTO CIGANO


O poema «BUSCA», de Sophia de Mello Breyner Andresen


Logo no início do poema «BUSCA» (que integra a obra O CRISTO CIGANO, e que se situa entre os poemas intitulados «O DESTINO» e «O ENCONTRO»), a poeta narradora – Sophia Andresen – apresenta uma figura enigmática que caminha, aparentemente livre, “pelos campos fora”, à procura de algo que é uma “presença ausente”: ou seja, algo impossível de encontrar:


Pelos campos fora

Caminhava sempre

Como se buscasse

Uma presença ausente.


Na realidade do poema, o caminho que essa figura percorre, exteriormente, transformar-se-á num ‘anticaminho’; e a enigmática personagem que o percorre, num anti-herói. O seu principal opositor será então a “morte”, personificada, cujo rosto o anti-herói em vão procura, “diante da vida”, num dia primaveril de maio, com “rosas e trigo”:


«Onde estás tu morte?

Não te posso ver:

Neste dia de Maio

Com rosas e trigo

É como se tu não

Vivesses comigo.

A ti me enviaram

És tu meu destino

Mas diante da vida

Eu não te imagino

A ti me enviaram

E sei que me esperas

Mas só oiço a verde

Voz das Primaveras

Onde a tua imagem

Onde o teu retrato

Na manhã tão limpa?

Onde a tua imagem

Onde o teu retrato

Nas tardes serenas

Nos frutos redondos

Nas crianças puras

Nas mulheres criando

Com seus gestos vida?

Onde a tua imagem

Onde o teu retrato

Nas coisas que eu amo?

Onde a tua voz

Ou a tua presença

Na voz deste dia?

Aqui onde habito

Há o sol a pique

O mar descoberto

A noite redonda

O instante infinito.

É verdade que passas

Pela cidade às vezes

Nos caixões de chumbo:

Mas viro o meu rosto

Pois não te compreendo

És um pesadelo

Uma coisa inventada

Que o vento desmente

Com suas mãos frescas

E a luz logo apaga.

Onde a tua imagem

Ou o teu retrato

Nas coisas que eu vejo?

É verdade que passas

Pela cidade às vezes

Com teu vestido roxo

 Entre velas e incenso:

Mas eu te renego e o vento te nega

Com suas mãos frescas

 E eu não te pertenço.

Meu corpo é do sol

Minh’alma é da terra.

Onde está teu rosto

Ou a raiz de ti

Onde procurar-te?

E como te amarei

Tanto que em meus dedos

Tua imagem floresça

E entre as minhas mãos

O teu rosto apareça?»

Sophia de Mello Breyner Andresen – O Cristo Cigano.

No relativamente longo solilóquio, acima citado, está bem patente a luta que é travada no âmago do anti-herói. É uma luta desigual que ele trava, aparentemente, com a “morte”, cujo rosto não vê, porque não quer ver; ou porque (como se pode ler noutro poema que integra a mesma obra) a sua face lhe “é oculta”. Contudo – na lógica do universo ficcional que Sophia Andresen cria no poema dramático O CRISTO CIGANO -, a luta que o anti-herói (neste caso: o escultor, o artista, o esteta) trava, realmente, é consigo mesmo. Mas porquê? Qual a verdadeira razão desse conflito interior?


Na nossa visão, a resposta à questão acima colocada poderá ser encontrada numa entrevista concedida por Sophia de Mello Breyner Andresen a O Tempo e o Modo, em 6 de junho de 1963, que transcrevemos de seguida :


A arte deverá ter por fim a verdade prática?



1 – Qual o modo mais fecundo de o Poeta colaborar na cidade?
S.M.B.A. – A poesia, só por si mesma propõe à cidade um fundamento de verdade. E, só por si mesma, a poesia é uma forma de resistência contra todas as indignidades e mentiras. O verdadeiro poeta é sempre um resistente. Mas o falso poeta, sejam quais forem as causas que diz defender, é sempre um conivente.

2 – A imposição de uma orientação ideológica (de qualquer carácter moral, político, religioso) não será uma limitação da liberdade do poeta?

S.M.B.A. – Dante escreveu no centro da Divina Comédia:
“Os que pensaram bem até ao fundo
Descobriram a inata liberdade [sublinhado nosso]
E por isso a moral deram ao mundo”
Parece-me óbvio que nenhuma orientação pode ser imposta.

3 – Só se poderá considerar social a poesia que cante as inquietações valores sócio-políticos ou possui interesse verdadeiramente social toda a poesia que cante o homem sem qualquer limitação ou temas?

S.M.B.A. – Existe uma unidade da verdade. Aquele que busca uma relação justa com o mar, com a pedra, com a árvore contribui para uma relação mais justa entre os homens. Cada um tem os seus termos, os seus caminhos. Um falará de rochedos e vento, outro falará de cidades e lágrimas. Mas, porque a poesia é a nossa explicação com o universo e a nossa mais íntima implicação na realidade, há temas a que nenhum poeta pode ficar alheio, pois esses temas invadem a nossa vida e não os viver é não estar vivo. Quem pode ignorar a morte, o amor, a busca da liberdade e de justiça? [sublinhado nosso]
Porque a poesia é a nossa mais íntima implicação, na realidade ela é por si mesma compromisso e participação. O poeta não vem apenas contar e cantar o mundo. Vem também modificá-lo. Mallarmé dizia que o fim da poesia era “dar um sentido mais puro às palavras da tribo“. Mas eu creio que a poesia vem também dar um sentido mais justo aos actos da tribo. Pois as palavras não estão limitadas a si mesmas. Não é possível purificar as palavras sem purificar também a relação do homem com a realidade.
Por isso não distingo entre poesia gratuita e poesia comprometida, pois não há poesia gratuita. Distingo sim entre poesia e esteticismo. Para o esteta a poesia é um ornamento da vida. Para o poeta a poesia é uma forma de salvação sua e dos outros.
E esta busca de salvação não pode ser alheia à busca de uma forma concreta e prática de justiça.


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Fernanda Alves Afonso Grieben

fe@revisitar.com

Sou pintora, originária do Norte de Portugal, mas resido atualmente na Alemanha. Também gosto de escrever textos literários, sobretudo para a infância. Faço-o, principalmente, para mim própria. No entanto, alegro-me sempre que encontro uma possibilidade de partilhar a minha escrita com as demais crianças, de todas as idades. Sou Mestre em Teologia (UCP); Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas – variante de Estudos Portugueses e Doutorada em Estudos Portugueses, na especialidade de Literatura Portuguesa (UAb).