A figura do cigano, na obra O CRISTO CIGANO


A forma como a figura do cigano é apresentada no poema IV – intitulado “O ENCONTRO” – da obra O CRISTO CIGANO, de Sophia de Mello Breyner Andresen, traz-me à memória “A PONTE de RAKOTZ, em Kromlau, Alemanha” (cf. Imagem acima e o Apêndice 1 abaixo).


Assim como essa ponte em Kromlau, também a figura do cigano é desenhada, no poema dramático de Sophia, em total harmonia com o meio natural em que se insere, e com o qual forma um todo, indivisível. É a perfeita união entre ser humano, natureza e cosmos, expressa no primeiro e último verso do poema: “Redonda era a tarde”. Esta expressão invoca espontaneamente, na mente do leitor(a), a imagem do “círculo” que, dessa forma, se transforma em “símbolo primordial da eternidade” e “sinal da presença divina” (cf. abaixo o Apêndice 2).

Atentemos nas palavras do poema:


IV

O ENCONTRO

Redonda era a tarde

Sossegada e lisa

Na margem do rio

Alguém se despia.

Sozinho o cigano

Sozinho na tarde

Na margem do rio

Seu corpo surgia

Brilhante da água

Semelhante à lua

que se vê de dia

Semelhante à lua

E semelhante ao brilho

De uma faca nua.

Redonda era a tarde.


Outros dois versos que chamam a nossa atenção, quando lemos o poema, são os seguintes: “Sozinho o cigano / Sozinho na tarde”. Acentuando a solidão existencial do cigano – mas inserindo a sua existência num todo harmonioso e indivisível, onde a presença divina se faz sentir -, Sophia realça, neste seu poema, a singularidade e excecionalidade de uma vida isolada (ou excluída), de um ponto de vista sociocultural, mas conectada com o cosmos, de forma exemplar. Assim sendo, na economia narrativa do poema dramático, a figura do cigano assume uma dimensão universal. Já não representa, unicamente, a vítima inocente que será posteriormente imolada pelo escultor, mas também a perseguição e o genocídio do povo cigano, durante a Segunda Guerra Mundial – o Porajmos dos Roma e dos Sinti -; ou, já anteriormente, a perseguição inquisitorial a que foram sujeitos, que levou muitos ciganos a serem julgados e acusados pelo Tribunal do Santo Ofício (ou seja, pelos homens escuros, os Dominicanos inquisidores), especialmente em Portugal e Espanha.


IX

MORTE DO CIGANO

Brancas as paredes viram como se mata

Viram o brilho fantástico da faca

A sua luz de relâmpago e a sua rapidez.


O “brilho fantástico da faca” com que o escultor imola o cigano (no poema IX – intitulado “MORTE DO CIGANO” – da obra O CRISTO CIGANO) assemelha-se à “luz de relâmpago”, mas também se assemelha ao corpo do cigano que “surgia / Brilhante da água / Semelhante à lua / que se vê de dia”, no poema anterior.


A Lua que pode ser observada de dia, “durante a tarde”, encontra-se “necessariamente” em “Quarto Crescente” (cf. abaixo o Apêndice 3). Logo, a imagem da Lua, no poema de Sophia, corresponde a Toth, enquanto “símbolo da lua que, no quarto crescente, representava a busca de sabedoria”, ou seja, a busca do “conhecimento esotérico” (cf. abaixo o Apêndice 4).



Traduzido com a versão gratuita do tradutor – DeepL.com





Fernanda Alves Afonso Grieben

fe@revisitar.com

Sou pintora, originária do Norte de Portugal, mas resido atualmente na Alemanha. Também gosto de escrever textos literários, sobretudo para a infância. Faço-o, principalmente, para mim própria. No entanto, alegro-me sempre que encontro uma possibilidade de partilhar a minha escrita com as demais crianças, de todas as idades. Sou Mestre em Teologia (UCP); Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas – variante de Estudos Portugueses e Doutorada em Estudos Portugueses, na especialidade de Literatura Portuguesa (UAb).

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