O TEATRO: o Templo da Religião da Arte


Quando Richard Wagner desenvolve teoricamente a sua conceção de drama musical, por volta de 1850, já formula nos seus escritos uma reivindicação a que subjaz uma conceção de arte como religião, ou seja, uma conceção em que a arte se apresenta capaz de substituir as funções tradicionais da religião (cf. AQUI). Neste sentido, Wagner valoriza a dimensão comunitária da religião da arte (Kunstreligion), esforçando-se por dar ao culto íntimo e individual uma representação pública, em conformidade com a natureza figurativa e sensorial da arte, que tende sempre para a exteriorização. Dessa forma, os teatros, enquanto espaços de representação, transformar-se-ão nos templos da religião da arte (Kunstreligion).


Também é realçando essa dimensão comunitária da religião da arte (Kunstreligion) que Júlio Dinis – numa «Carta literária», de 1868, intitulada «Cartas para a minha família» (cf. AQUI, p. 56-90) –, depois de já ter colocado ao mesmo nível a atividade do artista e o exercício do ministério sacerdotal, pode defender que a religião da arte (Kunstreligion) possui os seus próprios ‘templos’ – que para o nosso autor, da mesma forma que para Wagner ou para Balzac, são ‘os teatros’ –, onde uma comunidade se pode reunir, para participar na celebração do seu culto. Atentemos na seguinte passagem:


A paródia nada respeita. Os mais belos tipos, as mais belas ideais concepções, as mais brilhantes imagens que tem concebido uma fantasia de poeta, de dramaturgo, de romancista, tudo ela abocanha e profana.

E não receiam que não volte ao templo assim profanado a arte que se preza?

Fechem antes os teatros, fechem-nos, porque os espectáculos assim não são os que civilizam, corrompem; não educam, pervertem.


É, pois, prestando culto à ‘arte que se preza’ e denegando a paródia ‘que nada respeita’ – como se pode ler na passagem da «Carta literária» de 1868 acima citada – que a comunidade dos seus crentes a declara sagrada. Esta sagração da arte traz consigo o reconhecimento do que ela pode conter de santo – enquanto meio de civilização e educação. O artista, por sua vez, desenvolvendo estratégias de sacralização da arte – que estão dependentes da noção de santidade –, recorre a sistemas simbólicos religiosos, que permitem que a arte possa assumir funções culturais sagradas.


TEATRO D. MARIA II


https://www.tndm.pt/pt


Biblioteca | Arquivo (do Teatro D. Maria II)


https://www.tndm.pt/pt/biblioteca-arquivo


Fernanda Alves Afonso Grieben

fe@revisitar.com

Sou pintora, originária do Norte de Portugal, mas resido atualmente na Alemanha. Também gosto de escrever textos literários, sobretudo para a infância ( https://momolandia.com/ ). Faço-o, principalmente, para mim própria. No entanto, alegro-me sempre que encontro uma possibilidade de partilhar a minha escrita com as demais crianças, de todas as idades. Sou Mestre em Teologia (UCP); Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas – variante de Estudos Portugueses e Doutorada em Estudos Portugueses, na especialidade de Literatura Portuguesa (UAb).