KUNSTRELIGION: uma conceção de Arte como Religião


As fontes de uma conceção de arte como religião encontram-se na tradição estética alemã e remontam aos finais do século XVIII , mesmo que o conceito – Kunstreligion (religião da arte) – só tenha sido estabelecido em 1807, por Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), no campo da filosofia da arte.


Foi Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher (1768-1834) quem, na sua obra Über die Religion (1799), primeiramente exprimiu uma noção que alia arte e religião, fornecendo o primeiro registo escrito do termo «Kunstreligion». Contudo, quando Schleiermacher emprega o termo Kunstreligion (religião da arte), ainda não o faz para exprimir o valor conceptual que o termo viria a adquirir, mais tarde, no campo da filosofia da arte. Principalmente, porque, na visão teológica de Schleiermacher, a religião é sempre, e em primeiro lugar, sentimento, contemplação. Ou seja: é religião enquanto devoção, ou religiosidade. Na perspetiva filosófica de Hegel – que viria a dar o contributo mais significativo na determinação conceptual do termo –, pelo contrário, a verdade essencial da religião pode ser apreendida em conceitos e compreendida pela Razão.


Embora tenha conhecido o seu centro teórico na Alemanha, a partir de 1850, a Kunstreligion (religião da arte) expandir-se-ia por outros países, vindo a formar uma corrente de pensamento, que se constituiria como um paradigma filosófico da modernidade, de influência hegeliana. Na Europa, a sua receção efetuar-se-ia, primeiramente, de forma pontual, por parte de alguns artistas – entre eles, encontra-se o nosso Júlio Dinis (cf. AQUI) –, que começam então a exaltar a arte como religião, da qual o artista, assumindo funções ministeriais, se apresenta como sacerdote. A missão a cumprir seria a de educar e civilizar o povo europeu, num tempo em que as sociedades da Europa ocidental experienciam um acelerado processo de secularização.


Dessa forma, na segunda metade do século XIX, o conceito de Kunstreligion (religião da arte) radicaliza-se, começando a exprimir uma relação de concorrência, no espaço público, entre a arte e a religião oficial – no caso português, entre a arte e o catolicismo. Essa concorrência expressa-se, sobretudo, através da atitude dos artistas, que, com a sua prática artística, intervêm criticamente na sociedade, com o intento de ajudar a (re)construí-la, veiculando os valores inerentes à ideologia que defendem – e a Kunstreligion difunde enquanto corrente estético-filosófica.


Gostaríamos ainda de salientar que há dois aspetos que se nos afiguram de grande relevância no discurso do teólogo liberal acima referido – Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher -, quando o comparamos com a forma como o conceito de Kunstreligion (religião da arte) haveria de evoluir, a partir da segunda metade do século XIX, radicalizando-se. A saber: o papel atribuído à sensibilidade artística – e à forma como ela pode atuar na mente do artista (ou do crente religioso) –, enquanto medianeira entre o Absoluto e o ser humano; e a defesa de que deve (ou não deve) estabelecer-se uma relação entre a moral, a metafísica e o campo da arte (ou da religião). Assim, enquanto Schleiermacher recorre à arte para proclamar a autonomia e superioridade da religião – defendendo que esta última não deverá prescindir do serviço que a sensibilidade artística lhe pode prestar e traçando uma linha nítida de separação entre religião/moral/metafísica –, a partir de 1850, os adeptos da Kunstreligion (religião da arte) recorrerão à religião para proclamar a autonomia e superioridade da arte – defendendo que a sensibilidade artística tem uma missão religiosa a cumprir e aliando arte-moral-metafísica.


Comparando essas duas posições, poderemos, pois, concluir que ambas visam, com as suas propostas, emancipar as suas áreas de atividade – a religiosa e a artística – do jugo da autoridade eclesial, ou seja, da ortodoxia protestante ou da ortodoxia católica. E é perseguindo esse fim que – num tempo em que no mundo cristão ocidental a religião pública começa a perder o seu papel predominante na sociedade – Schleiermacher desenvolve uma teoria da religião, fundada na subjetividade – única e irrepetível – de cada crente que – embora integrado numa comunidade e numa tradição – toma consciência da sua total e direta dependência de Deus. Uma teoria da religião que, surgindo no seio de uma sociedade em que a secularização marca cada vez mais a cultura, intenta reavivar o sentimento religioso, propondo que se estabeleça uma aliança entre arte e religião, ou seja, que se cultive a ‘arte da religião’.


A partir de 1850, os adeptos da Kunstreligion (religião da arte), por seu turno, defendendo que a arte deve assumir funções anteriormente exercidas pela religião pública, respondem positivamente a um processo acelerado de secularização, no contexto sociocultural da segunda metade do século XIX, sacralizando a arte, ou seja, aderindo à ‘religião da arte’. Esta última posição, porém, corresponde já ao culminar de um longo processo de diferenciação funcional por que passam arte e religião, desde o século XVIII até à segunda metade do século XIX, quando o conceito de Kunstreligion (religião da arte), radicalizando-se, já exprime uma relação de concorrência entre arte e religião. 


Fernanda Alves Afonso Grieben

fe@revisitar.com

Sou pintora, originária do Norte de Portugal, mas resido atualmente na Alemanha. Também gosto de escrever textos literários, sobretudo para a infância. Faço-o, principalmente, para mim própria. No entanto, alegro-me sempre que encontro uma possibilidade de partilhar a minha escrita com as demais crianças, de todas as idades. Sou Mestre em Teologia (UCP); Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas – variante de Estudos Portugueses e Doutorada em Estudos Portugueses, na especialidade de Literatura Portuguesa (UAb).

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