«No teatro», de Júlio Dinis


O tema da indigência (visto da perspetiva da religião da arte, cf. AQUI) é cantado exemplarmente por Júlio Dinis numa longa composição poética – intitulada «No teatro» (composta em 1868) –, da qual transcrevemos de seguida alguns versos:  


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Fora das portas do teatro, a noite

Estende o denso manto humedecido

Das chuvas de Dezembro; os ventos sopram

Com rigorosa violência. Pobre

Do que não tem abrigo em noites destas!

Mas não ouvis um como triste choro

À porta do teatro? Além, na sombra,

Parece que se move um vulto escuro:

O doloroso choro dali parte;

Vejamos de mais perto. Oh triste cena!

Uma mãe e três filhos; um no colo,

Dois cingidos a ela em pé, chorando

De fome e frio; a escálida miséria

Passou seus magros dedos nessas faces

Que a palidez da morte tinge, e os traços

Gravaram-se bem fundos. Com voz fraca

Pede a mãe para os filhos: «Por piedade!

Lembrai-vos destas pobres criancinhas,

Que me morrem de fome. Pouco basta

Para lhes dar alívio. Deus proteja

Vossos filhos e os livre da desgraça

Em que os meus vivem. Dai-lhes uma esmola.»

Ninguém escuta a voz da desgraçada;

Ninguém lhe estende a mão auxiliadora!

Onde escondeste, ó turba indiferente

Aos gritos da desgraça aquele pranto

Que há pouco nos teus olhos borbulhava?

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Passa o grave ancião, que enternecido

Vimos seguindo o drama. – «Por piedade»,

Lhe brada a pobre mãe – «matai-me a fome

A estas criancinhas. Ai, tão pouco,

Tão pouco bastará!» – «Mulher, retire-se;

Não é aqui lugar pra peditórios,

Não pode ser agora!» – e, prosseguindo

O caminho de casa, ia dizendo

O judicioso velho: – «Esta polícia

O que é que faz, se à porta dos teatros

Assim nos vêm importunar mendigos?»

Velho, porque choraste há pouco ainda

Perante simulados infortúnios?

Mentiste ao coração, velho, mentiste;

O gelo do egoísmo o cobre há muito.

Em ti não há piedade; agora o vejo.

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Júlio Dinis – Poesias.

Apresentada num cenário que tem como pano de fundo ‘as portas do teatro’, a indigência é associada – no poema dinisiano acima transcrito – ao tema da alienação política, estimulada por espetáculos pseudoculturais – que também revelam uma forma de pobreza que se traduz na falta de bom gosto e na insensibilidade artística. Esta falta de sensibilidade também se reflete na forma como os espectadores que acabam de assistir a um espetáculo de baixo nível artístico, pelo qual se deixaram ‘sensibilizar’, ficam completamente insensíveis ao cenário real do sofrimento de uma pobre mãe que pede esmola para matar a fome de seus filhos ainda crianças.


Fernanda Alves Afonso Grieben

fe@revisitar.com

Sou pintora, originária do Norte de Portugal, mas resido atualmente na Alemanha. Também gosto de escrever textos literários, sobretudo para a infância ( https://momolandia.com/ ). Faço-o, principalmente, para mim própria. No entanto, alegro-me sempre que encontro uma possibilidade de partilhar a minha escrita com as demais crianças, de todas as idades. Sou Mestre em Teologia (UCP); Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas – variante de Estudos Portugueses e Doutorada em Estudos Portugueses, na especialidade de Literatura Portuguesa (UAb).