Júlio Dinis e a Questão Coimbrã
Em dezembro de 1879, foi publicado no Jornal do Porto um folhetim que reunia sob o mesmo título – «A ciência a dar razão aos poetas» – duas «Cartas ao redactor do ‘Jornal do Porto’» que Júlio Dinis endereçara já em 1864 à redação desse periódico, que se encontrava então sob a direção de Ramalho Ortigão. São-nos desconhecidas as razões que teriam levado o diretor do Jornal a não editar essas duas cartas, no devido tempo[1]. Publicadas, finalmente, em 1879[2], sem a assinatura do seu autor – mas acompanhadas de uma nota da redação do Jornal do Porto onde se esclarece que tinham sido encontradas entre «os manuscritos de Júlio Dinis», que as redigira «em 1864»[3] –, as referidas cartas viriam mais tarde a enformar uma das «Cartas literárias» de Júlio Dinis, que se apresenta dividida em duas partes (I e II) [4].
A temática estético-científica tratada por Júlio Dinis nessas duas «Cartas ao redactor do ‘Jornal do Porto’» aproxima-as, é certo. No entanto, na primeira das duas, o nosso autor começa por abordar uma matéria que se sobrepõe a essa aproximação. Inicia a carta da seguinte forma:
Meu amigo:
Nestes tempos que correm, asados para toda a espécie de luta, é de alegrar deveras a notícia de uma reconciliação cordial entre inimigos velhos. O ditado português, Ódio velho não cansa, que o Sr. Rebelo da Silva tomou para epígrafe do seu primeiro romance, sofre felizmente ainda de quando em quando notáveis desmentidos.
A nossa época está presenciando fenómenos bastante singulares. Enquanto por um lado, e tão perto de nós, vemos o espectáculo desconsolador de um inglório e já fastidioso certame entre os nossos literatos, contenda desapiedada e nem sempre cortês, de onde as reputações feitas saem enxovalhadas, as nascentes, feridas talvez de morte pela dureza do combate, e só incólume quem nada arriscou, por nada ter que perder; lá por fora, mostram-se-nos insolitamente amáveis para com as fantasias dos poetas até os seus antigos adversários – os homens da ciência!
É já um facto reconhecido o da galantaria da ciência contemporânea. Esta sisuda dona, a quem dantes as harmonias da lira romântica escandalizavam os ouvidos, demasiado escrupulosos, já lhes sorri e despojada de velharias pedantescas, vai reconhecendo que, sob aparências frívolas mas não obstante ou não sei se por isso mesmo, agradáveis, a musa dos poetas e romancistas costuma às vezes dizer coisas, que valem bem a pena de ser atendidas.
Não concorda, meu amigo, que estes factos são uma feliz compensação para aqueles outros, que eu lamentava? Quando lavre no seio de um povo a guerra civil, ao menos que ande ele em paz com os seus vizinhos da fronteira.
Se estiver para me ouvir, quero entretê-lo hoje a respeito de uma destas finezas da ciência à literatura.
Trata-se do coração, assunto ao qual, sem flagrante injustiça, se não poderá negar o epíteto de palpitante.
Há-de saber, que entre os poetas e fisiologistas reinava de há muito grande divergência em quanto à maneira de conceber a vida do coração.[5]
Começando por chamar a atenção para o clima de conflituosidade que domina a sua época, Júlio Dinis destaca, na passagem acima citada, uma ‘contenda desapiedada e nem sempre cortês’ que, nesse tempo, decorre entre ‘literatos’ portugueses – contenda essa que opõe as ‘reputações feitas’ às ‘nascentes’. Trata-se, pois, de um conflito de gerações literárias que decorre em Portugal nesse ano de 1864, contrastando com o que se passa ‘lá por fora’ – onde a ‘ciência contemporânea’ já ‘vai reconhecendo’ o valor da ‘musa dos poetas e romancistas’.
Pode continuar a ler AQUI, p. 92 e ss.
[1] Sobre este assunto, cf. AQUI, p. 35 e ss.
[2] Saliente-se que, em 1879, o Jornal do Porto já não se encontrava sob a direção de Ramalho Ortigão, mas que o seu redator era então Alberto Pimentel.
[3] DINIS – Obras, vol. 2, p. 691.
[4] Cf. Ibidem, pp. 691-705.
[5] Ibidem, pp. 691-692.

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