«Pater», de Antero de Quental
Dia Mundial da Poesia | 21 de março de 2026
PATER
Vós, Poetas, vós sois tambem sibyllas,
Que adivinhais e andaes com voz fremente
Sempre a gritar – ávante! ávante! á gente,
Por cidades, por montes e por villas.
Vós sois os prégadores do Ideal,
Que lançaes a palavra aos quatro ventos:
A tribu de Levi, que em mil tormentos
Guarda a Arca, dos filhos de Baal.
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Elles fazem do mundo eucharistia,
Onde vêm ter os povos communhão,
E, do genio assoprando-lhe o clarão,
Fazem da noite humana imenso dia.
Pois, se são operarios do futuro,
Semeadores da seara nova,
Que lançam uma idéa em cada cova,
Da dura historia sobre o chão escuro;
Se vão na frente, e a bussola que os leva,
Para o pólo de Deus se inclina e pende;
Buscando o continente que se estende
Além do sofrimento e além da treva;
Se a cada voz de guerra dizem – basta!
Lançando-se entre os ferros dos irmãos;
E exclamam – ainda! – pondo as mãos,
A cada voz de amor serena e casta;
São os grandes profetas da consciencia;
Biblias que o povo com a mão folheia;
Reveladores santos da Idéa,
Que, em cada hora, vão furtando á Essencia:
São milícia sagrada – são cohortes
Do céo, passando aqui – são missionarios
Amostrando a Jesus aos homens varios…
Ajudam pois a Deus! são sacerdotes!
Ahi tendes os Padres! que nos cobrem
Nossas frontes do mal, e nos desvendam
Os olhos por que vejam, amem, entendam…
Não os que o sol co’as capas nos cobrem!
A Igreja dera o Inferno ao triste réo
(Que beijo maternal! E que olhar terno!)
Mas Dante, a pé enxuto, passa o Inferno,
Para, chegando á porta, bradar céo!
Desde essa hora… acabou! Abriu-se a porta!
Os condenados ruem para fóra!
O que era multidão ainda agora…
Tornou-se solidão deserta e morta.
Antero de Quental – Odes Modernas.

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