Júlio Dinis e a Homeopatia: «Similia similibus»
No poema «Similia similibus» (sem ano de composição), Júlio Dinis expõe o princípio similia similibus curantur, em que se baseia a homeopatia – descoberta por Christian Friedrich Samuel Hahnemann (1755-1843) –, que tem a sua origem na antiga alquimia[1]:
Nova seita proclamaram
De Esculápio os descendentes;
Dão vivas os boticários,
Estremecem os doentes.
Mas que achado! Os velhos médicos
Vêem o passado com mágoa;
Estes, de novo sistema,
Aquecem água com água.
O fogo apagam com fogo,
Dão vista aos cegos, cegando,
E até para coroar a obra,
Curam da morte… matando.[2]
O canto da lira soa irónico, neste poema onde Júlio Dinis apresenta a ‘nova seita’ dos descendentes de ‘Esculápio’[3] – o deus da Medicina, na mitologia romana, «venerado pelos gregos sob o nome de Asclépio»[4] – como algo que é aplaudido pelos ‘boticários’ e faz com que os ‘velhos médicos’ vejam o passado ‘com mágoa’. Na realidade, o novo método de curar – introduzido por Hahnemann, que apresenta o essencial da sua doutrina na obra Organon (1810) – obrigaria o seu inventor a deixar Leipzig, onde tinha apresentado a sua tese. Sendo perseguido, sobretudo, por administrar a seus pacientes os remédios por ele próprio produzidos, Hahnemann é praticamente expulso dessa cidade alemã, por instigação dos farmacêuticos que nela exerciam o comércio dos medicamentos[5].
No século XIX, em Portugal, como na Alemanha, o comércio das drogas medicinais – cujos preços eram, frequentemente, demasiado elevados em relação ao nível de vida da população portuguesa – era rendoso para os farmacêuticos que as produziam. Júlio Dinis regista essa realidade, quando, no capítulo III de Os Fidalgos da Casa Mourisca, põe na boca da personagem Jorge a seguinte afirmação: «– Os remédios são caros na botica, Tomé. Os pobres vêem às vezes morrer um doente, porque não podem comprar a droga que o salvaria»[6]. Uma constatação que se encontra confirmada, no capítulo XIII de As Pupilas do Senhor Reitor, nos seguintes diálogos que se estabelecem entre a personagem Margarida e o pároco da aldeia:
Os olhos vermelhos da sua pupila, a expressão de dor que trazia no semblante, chamaram a atenção do reitor.
– Que tens, Margarida? – perguntou ele com solicitude. – Esses olhos são de quem chorou.
– É que despedaça o coração ouvi-lo.
– Então está mais doente?
– Está muito mal.
– E onde ias tu?
– A casa. O boticário quer o dinheiro dos remédios…
– Que não vá arruinar-se o homem. Deixa que tem de me ouvir. É pior que o pior dos seus cáusticos. Porém não tem dúvida, que eu venho bem provido. Entra, mas antes alegra-me esse rosto. Vamos […]
O senhorio foi embolsando o dinheiro, insignificante preço de dois meses de aluguer daquele miserável casebre, e retirou-se com uma alegria profunda.
– Restam cento e dez – disse o pároco, vendo o dinheiro que lhe ficara. – Chegará para os remédios? – perguntou olhando para Margarida.
Esta fez um gesto de dúvida.[7]
É desconhecido o ano de composição do poema dinisiano anteriormente transcrito, no entanto, já em 1858 Júlio Dinis compõe uma «comédia original em um acto» a que também atribuiu o título Similia similibus[8]. Nessa peça de teatro, o Dr. Mateus, «médico homeopata», afirma a certa altura o seguinte: «– Vejo que o senhor Tomás Bento é um dos mais inteligentes sectários de Hahnemann: sabe compreender as doutrinas homeopáticas em toda a sua generalidade». Com este comentário elogioso, o Dr. Mateus tenta dar uma resposta positiva, ainda que indireta, à proposta que o seu paciente, Tomás Bento – demonstrando estar bem esclarecido acerca da moderna arte de curar, pela qual nutre uma simpatia que se acerca do fanatismo – formula, nos seguintes termos: «– Depois, passando a pensar noutras coisas [o possível casamento de sua filha Livínia com o Dr. Mateus], lembrei-me da Homeopatia, do similia similibus curantur e por consequência de um outro preceito não menos conceituoso a esse filiado: O similes similibus congregantur»[9]. O casamento de Livínia com o Dr. Mateus, porém, não se realizará, porque a mulher de Tomás Bento, D. Rosa, consegue trazer à discussão da proposta acima referida argumentos válidos, que nem o seu marido nem o Dr. Mateus conseguem refutar, para demonstrar que o casamento de Livínia com seu primo Carlos está mais em concordância com os preceitos da doutrina que seu marido fanaticamente defende. Contudo, D. Rosa é uma mulher que não acredita na homeopatia – é, no dizer de Tomás Bento, «alopata da gema»[10] –, preferindo a sua «doutrina velha» à nova «abençoada doutrina», mesmo que seu marido tente a toda a força convencê-la do contrário, enquanto toma um ‘café’, argumentado: «– Sim, a doutrina velha! (Bebe um gole de café). A medicina hipócrita! A medicina fóssil! (Outro gole). Carunchenta, antifilosófica! (Outro). A medicina raquítica! A medicina do contraria contrariis! (Outro) Medicina de boticários! (Idem). Do chá de violetas! (Idem). Dos cáusticos! (Idem). Das papas de linhaça»[11]. Mas D. Rosa não se deixa convencer, já que, para ela, o Dr. Mateus representa o ‘Demo’ – como ela declara, logo da primeira vez que entra em cena:
[…] E por aquele pedaço de charlatão vai abandonar o Rodrigues, há tanto tempo médico da nossa casa! Não, pois eu, se Deus quiser, outro à minha cabeceira não consinto. Ver o tal homeopata, o Senhor me perdoe, mas é para mim o mesmo que ver o Demo. Não o posso encarar. Bem diz o Dr. Rodrigues que ele mais parece formado em impostura do que em Medicina. Homens daqueles é que botam o mundo a perder. O Senhor me não castigue.[12]
Composta em 1858 – quando Júlio Dinis tem 19 anos de idade e é estudante da Escola Médico-Cirúrgica do Porto –, esta comédia dinisiana, assim como o poema anteriormente transcrito, regista ironicamente o fanatismo demonstrado por parte de alguns sectários da homeopatia, que, nesse tempo, começa a ser praticada de forma abusiva por oportunistas e charlatães que, como o Dr. Mateus, se fazem passar por ‘médicos homeopatas’, muitas vezes, sem possuírem a devida formação e visando, apenas, fins lucrativos – como revelam as seguintes palavras do Dr. Mateus, proferidas num aparte, acerca de Tomás Bento, depois de ver desfeito o seu propósito de casar com Livínia, por não ter conseguido convencer o seu paciente de que a homeopatia nada tinha que ver com casamentos: «– Não há remédio senão tentar fortuna por outra parte. Este homem é homeopático de mais, homeopatomaníaco. Nada, a doutrina da homeopatia rende dinheiro, mas não há-de ser tão generalizada»[13].
Pode continuar a ler AQUI, p. 188 e ss.
[1] Cf. FAIVRE, Antoine – Franz von Baader et les Philosophes de la Nature. In FAIVRE, Antoine ; ZIMMERMANN, Rolf Christian, Hrsg. – Epochen der Naturmystik : hermetische Tradition im wissenschaftlichen Fortschritt ; Grands moments de la mystique de la nature ; Mystical Approaches to nature. Berlin : Erich Schmidt, 1979, p. 416.
[2] DINIS – Obras, vol. 2, p. 311.
[3] Os descendententes de Esculápio (ou Asclépio) eram os Asclepíades, que formavam uma confraria sacerdotal onde os segredos desse ilustre anpepassado comum eram transmitidos de pai para filho. Joël Schmidt – descrevendo resumidamente a história do referido deus da Medicina, que na Antiguidade atingiu a celebridade, e que a lenda diz ser filho de Apolo e de Corónis, filha de Flégias, rei da Tessália – esclarece a certa altura que, apesar de Asclépio ter tido uma morte trágica (foi fulminado por Zeus, por ser demasiado zeloso), «teve direito, na Antiguidade, a honras divinas, e eram numerosos os enfermos, cegos e doentes, que vinham aos seus santuários, nomeadamente a Epidauro, pedir a cura e o fim dos sofrimentos. Asclépio aparecia-lhes então em sonho e revelava-lhes o remédio que lhes devolvia a saúde. Trazia como emblema principal a serpente, símbolo ctónico e também imagem de renovação, pois que este animal muda de pele cada ano. Asclépio transmitiu os seus dons miraculosos aos seus filhos Macáon e Podalírio, médicos na armada grega diante de Tróia, à sua filha Hígia, deusa da Saúde, e aos seus descendentes, os Asclepíadas […]»: cf. SCHMIDT, Joël – Dicionário de mitologia grega e romana. Trad. de DOMINGOS, João. Lisboa : Edições 70, 2005, p. 45.
[4] Cf. Ibidem, p. 106.
[5] Cf. FAIVRE – Franz von Baader, p. 416.
[6] DINIS – Obras, vol. 1, p. 920.
[7] Ibidem, p. 58; 61.
[8] Cf. IDEM – Obras, vol. 2, pp. 1065-1099.
[9] Cf. Ibidem, p. 1083.
[10] Ibidem.
[11] Cf. Ibidem, p. 1078.
[12] Ibidem, p. 1067.
[13] Ibidem, p. 1098.

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