A Questão Coimbrã e a Religião da Arte
A chamada Questão Coimbrã foi fermentando no meio intelectual e literário português desde 1862[1], espelhando um conflito que eclodiria em novembro de 1865, quando Antero de Quental publica um opúsculo – intitulado«Bom-senso e Bom-gosto»[2] – onde ataca diretamente António Feliciano de Castilho. Este ataque, porém, é uma reação de defesa perante as críticas ofensivas – ainda que mais ou menos indiretas – que Castilho dirigira, anteriormente, à poética adotada por um grupo que se formara no meio universitário coimbrão, do qual Antero de Quental se apresenta como mentor.
As referidas críticas de António Feliciano de Castilho surgiram no contexto de uma carta escrita à guisa de posfácio à primeira obra de Manuel Pinheiro Chagas, Poema da Mocidade[3]. Nessa carta – dirigida ao editor e «Amigo Sr. Pereira»[4] e redigida em «Lisboa, no retiro da minha mata, 27 de Setembro de 1865»[5] –, António Feliciano de Castilho – figura de enorme destaque político, social e cultural, que apadrinha os literatos lisboetas ultrarromânticos – censura a poética do referido grupo de estudantes conimbricenses, ao mesmo tempo que recomenda este seu protegido para a cadeira de literatura moderna[6], nos seguintes termos:
Eis aqui pois, se jámais o houve, o propriíssimo para um curso de litteratura moderna, o homem que tem em si mesmo os livros, que os sabe recitar, que sabe julgal-os, e que sabe, o que é mais difficil, amenisar por tal arte a doutrina que todos lh’a hão-de por gosto receber […]
Tenho fé na illustração do governo, e fio que a lembrança não ha-de cair desaproveitada.
Antevejo-lhe todavia uma objecção que para entre nós mal costumados ainda á liberdade do pensamento, não é por certo das mais pequenas […]
Que o digam a França e a Allemanha; que o digam todos os paizes illustrados; declarem elles quanto não devem de progresso ao moderno espirito, cada vez mais desenvolvido, de livre exame, de livre censura, e de liberrima censura de censura […]
Não regeitarão a these, que para liberaes e filosofos é evidente; mas continuarão a murmurar contra a proposta d’este critico para a cadeira de litteratura moderna; e de meras hypotheses sacarão os argumentos em contrario.
‘Theophilo Braga – dirão – Anthero do Quental, Vieira de Castro, talentos distinctos, e de já não pequena cleientella todos elles, têem sido, e continuam a ser, acremente objurgados por este aquilatador inexoravel.’ […]
Uma das duas: ou cada um d’esses tres mancebos é perfeito, ou não:
Se é perfeito, ninguem tema por elles: são tres aguias que nasceram adultas […]
O critico de bem, severo até, e embora desabrido, é, ainda que ao criticado o não pareça, o amigo mais proveitoso de quanto pode ter. Vale-lhe elle só à sua parte mais que trinta, e trezentos louvadores […]
Deixando de parte, por agora, Braga e Quental, de quem, pelas alturas em que voam, confesso, humilde e envergonhado, que muito pouco enxergo, nem atino para onde vão, nem avento o que será d’elles afinal, por Vieira de Castro digo eu o que o proprio Pinheiro Chagas nunca se lembrou de contestar-lhe: que é um talento verdadeiro, grandioso, exorbitante, e d’um futuro que me parece cubiçavel.[7]
Nos fragmentos da carta acima citados, Castilho defende a ‘liberdade do pensamento’ – praticada nos países ilustrados, de que são exemplo a França e a Alemanha –, à qual, na sua opinião, os portugueses seus contemporâneos não sabem dar o devido valor, por ela ainda não ser entre eles um costume enraizado. No entanto, o que é afirmado, nesses mesmos fragmentos da referida carta, acerca da crítica e da forma como ela pode ser benéfica ao criticado, contrasta nitidamente com o tipo de crítica que o próprio Castilho põe em prática, quando se refere ao seu protegido, Pinheiro Chagas, em tom altamente elogioso, por oposição ao que afirma acerca de Antero de Quental e Teófilo Braga. Assumindo, pois, uma posição nitidamente tendenciosa, Castilho vai trair, com a prática, o que pretende defender teoricamente[8].
Por outro lado, ao referir-se às ‘alturas em que voam’ aqueles que não merecem os seus elogios, o crítico também marca o seu distanciamento em relação às tendências especulativas que subjazem à produção poética dos dois estudantes conimbricenses. Tendências que são explanadas, numa abordagem filosófica, tanto por Teófilo Braga como por Antero de Quental.
Assim, é começando por parafrasear Hegel (em nota de rodapé pode ler-se: «Hegel, Esthetica, t. II, trad. de Benard») que o primeiro desses dois autores, em Tempestades Sonoras[9], numa «Parte Esthetica», introdutória da obra – intitulada «Sobre a evolução da Poesia determinada pelas relações entre o sentimento e a fórma»[10] e redigida em «Porto, Junho, 1864»[11] –, se aproxima do final da explanação das ideias estético-filosóficas que perfilha, definindo da seguinte forma ‘oideal da arte moderna’: «o espírito não póde ser determinado na fórma; para entrar no domínio da arte, só pode realizar-se pelo sentimento. Esse sentimento puro, mavioso, profundo – é o amor divino, é o ideal da arte moderna»[12].
É em termos idênticos a esses de Teófilo Braga que, em 1865, Antero de Quental, em Odes Modernas[13] – onde, recorrendo, igualmente, à autoridade de Hegel, insere no início da «Parte Primeira» a seguinte epígrafe: «L’Idée… c’est Dieu!»[14] –, numa «Nota» final explicativa que serve de posfácio à obra, defende ‘o ideal da arte moderna’, começando por esclarecer que este seu livro é uma tentativa «para dar á poesia contemporanea a cor-moral, a feição espiritual da sociedade moderna», termina concluindo o seguinte: «a Poesia moderna é a voz da Revolução – porque Revolução é o nome que o sacerdote da historia, o tempo, deixou cahir sobre a fronte fatidica do nosso seculo»[15].
Este conflito intelectual entre a velha geração, que se mantém em torno de Castilho – «um dos grandes pontifices» de uma «litteratura official», «sem audácia, convencional, rethorica, académica, rotineira»[16] –, e «A Geração Nova»[17], que se forma em torno de Antero – que, de acordo com Teófilo Braga, se apresenta como o motor de um «movimento e esforço para dar ideal à poesia»[18], «n’uma terra em que a verdade para ser ouvida precisa trazer a fórma do escândalo»[19]–, apresenta como pano de fundo interesses ideológicos[20], mas, como já vimos, não são só as ideias o que divide os contendores. Colidem, de igual modo, os interesses pessoais[21], fazendo com que a «teocracia literária» que Castilho praticava no país também tivesse repercussões éticas – como esclarece João Gaspar Simões[22].
Na realidade, esse grupo revolucionário conimbricense – defensor do enquadramento da literatura portuguesa no plano cultural europeu coevo e cultor de uma poética que Castilho não aprovava – nem se assume como ‘escola’, como pretendera António Feliciano de Castilho, nem aceita que pretendam filiá-lo em qualquer uma das existentes nesse tempo, pois não é uma ideologia particular o que os une, mas um ideal universal de liberdade de pensamento e de expressão. É neste sentido que Antero de Quental pode asseverar:
Graças ao deus da liberdade, não pertenço por ora a nenhuma escola além da escola do pensamento e da franqueza. Essa está ou póde estar em Coimbra como em Lisboa ou em Pekin – em toda a parte aonde estiver uma consciencia leal[23].
Asseveração que é confirmada por Teófilo Braga – que integra o mesmo grupo e defende o mesmo ideal de liberdade de pensamento e de expressão –, quando afirma:
Não existe eschola alguma; existem apenas homens que sabem pensar e escrever com independencia. Todavia há quem ache conveniente servir-se d’esta designação para comprometer esses homens tornando-os solidários com as incoerencias e futilidades de gente que se dá por honrada em vêr-se reprovada em tão boa companhia.[24]
Mas em que se traduz, concretamente, essa defesa do ideal da arte moderna que ambos – Antero de Quental e Teófilo Braga – apregoam? De acordo com o que afirma o mentor desses jovens estudantes de Coimbra – em Bom-senso e Bom-gosto – essa defesa pressupõe, primeiro de tudo, a preservação da independência intelectual do poeta – independência que tem o seu fundamento no «trabalho» e na «consciencia» do poeta –, frente «ás vaidades omnipotentes» dos «grãos-mestres officiaes»[25]. Já que o «ideal» significa «desprezo das vaidades; amor desinteressado da verdade; preoccupação exclusiva do grande e do bom; desdem do futil, do convencional; boa fé; desinteresse; grandeza d’alma; simplicidade; nobreza; soberano bom gosto e soberaníssimo bom senso…»[26] – ou seja, corresponde a um conjunto de qualidades que, na opinião de Antero de Quental, António Feliciano de Castilho desconhece, sendo precisamente essa a razão por que os seus poemas líricos «não são methaphysicos, não precisam d’uma excessiva attenção, de esforços de pensamento para se comprehenderem – e têm a vantagem de não deixarem ver nem um só ideal»[27]. É com estas palavras irónicas que Antero termina a sua apreciação crítica dos ‘poemas líricos’ de Castilho, poeta que, na perspetiva do primeiro, não compreende que a verdadeira ‘missão’ do escritor é ‘um sacerdócio’, e o verdadeiro poeta é ‘apóstolo’ – como se pode aferir pela leitura da seguinte passagem, igualmente extraída de Bom-senso e Bom-gosto, que temos vindo a seguir:
O contrario d’isto tudo é que é a bella, a immensa missão do escriptor. É um sacerdócio, um officio publico e religioso de guarda incorruptivel das idêas, dos sentimentos, dos costumes, das obras e das palavras. Para isso toda a altura, toda a nobreza interior são pouco ainda. Para isso toda a independencia de espírito, toda a despreocupação de vaidades, toda a liberdade de jugos impostos, de mestres, de auctoridades, nunca será de mais. O mineiro quer os braços soltos para cavar buscando o ouro entre as areias grossas. O piloto quer os olhos desvendados para ler nos astros o caminho da náo por entre as ondas incertas. O sacerdote quer o coração limpo de paixões, de interesses, para aconselhar, guiar, julgar, imparcial e justo. O escriptor quer o espirito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inuteis, o coração livre de vaidades, incorruptivel e intemerato. Só assim serão grandes e fecundas as suas obras: só assim merecerá o logar de censor entre os homens, porque o terá alcançado, não pelo favor das turbas inconstantes e injustas, ou pelo patronato degradantes dos grandes e illustres, mas elevando-se naturalmente sobre todos pela sciencia, pelo paciente estudo de si e dos outros, pela limpeza interior d’uma alma que só vê e busca o bem, o bello, o verdadeiro.
Este é o escriptor, o poeta, o apostolo.[28]
Uma crítica onde – como defende Rui Ramos – se reconhece a influência da filosofia hegeliana[29], na qual se inspiraria a Kunstreligion (religião da arte) – corrente estético-filosófica que, partindo da Alemanha, só depois de 1850 atingiria outros países europeus. Esta corrente de pensamento europeu foi impulsionada, principalmente, pelo início da divulgação da primeira versão francesa da obra de Hegel Cours d’esthétique (Trad. Charles Bénard) – no original, Vorlesungen über die Ästhetik –, tanto citada por Antero de Quental como por Teófilo Braga, como vimos acima. A influência estético-filosófica dessa obra hegeliana também é testificada por Antero de Quental, na seguinte passagem, igualmente extraída da já referida «Nota» final explicativa que serve de posfácio à obra Odes Modernas, onde Antero defende o ideal da arte moderna, opondo-o ao ‘culto da arte pela arte’:
A poesia que quiser corresponder ao sentir mais profundo do seu tempo, hoje, tem forçosamente de ser uma poesia revolucionaria. Que importa que a palavra não pareça poetica ás vestaes litterarias do culto da arte pela arte? No ruido espantoso do desabar dos Imperios e das Religiões ha ainda uma harmonia grave e profunda para quem o escutar com a alma penetrada do terror sancto d’este mysterio que é o destino das Sociedades![30]
Pode continuar a ler AQUI, p. 103 e ss.
[1] Cf. SARAIVA, António José ; LOPES, Óscar – História da Literatura Portuguesa. 17a ed., corrigida e actualizada. Porto : Porto Editora, 1996, p. 800.
[2] Cf. QUENTAL, Anthero do – Bom-senso e bom-gosto : carta ao Excellentissimo Senhor Antonio Feliciano de Castilho. Coimbra : Imprensa da Universidade, 1865.
[3] No prefácio, redigido em Lisboa, em 6 de junho de 1865, Manuel Pinheiro Chagas esclarece que «oferece» esta sua primeira obra, Poema da Mocidade, a António Feliciano de Castilho, de quem se reconhece «Admirador, amigo e discipulo obrigadissimo»: cf. CHAGAS, Manuel Pinheiro – Poema da mocidade : seguido do Anjo do Lar. Lisboa : Livraria de A. M. Pereira, 1865, pp. v; xiii.
[4] CASTILHO, A. F. de – Critica litteraria : carta do ILL. mo e Ex. mo Sr. Antonio Feliciano de Castilho ao editor. In CHAGAS – Poema da mocidade, p. 183.
[5] Ibidem, p. 243.
[6] Esta cadeira de «Literatura Moderna do curso superior de Letras, bastião dos literatos oficiais» viria, no entanto, a ser ocupada, em 1872, por Teófilo Braga: cf. RAMOS – A formação,p. 510.
[7] CASTILHO – Critica litteraria, pp. 210-215.
[8] Luciano Cordeiro denuncia este tipo de crítica que se pratica em Portugal, nesse tempo, opondo-a ao que considera ser a «verdadeira crítica», em que diz crer, ou seja, na «crítica-sciencia, na crítica que não sacrifica a personalidades, – no sentido vulgar da palavra, – nem a intolerancias de fanatismos, nem a popularidades de compadrio, nem a inviolabilidade tradiccional de fórmulas e reputações, nem a irritabilidades de ignorâncias e vaidades»: cf. CORDEIRO, Luciano – Livro de crítica : arte e litteratura portuguesa d’hoje : 1868-1869. Porto : Typographia Lusitana, 1869, pp. 12-13.
[9] Cf. BRAGA, Theophilo – Tempestades Sonoras : segunda série da Visão dos Tempos. Porto : Em Casa da Viuva Moré, 1864.
[10] Ibidem, p. vii.
[11] Ibidem, p. xxx.
[12] Cf. Ibidem, pp. xxv-xxvii.
[13] Cf. QUENTAL, Anthero do – Odes modernas. Coimbra : Imprensa da Universidade, 1865.
[14] Ibidem, p. 6.
[15] Cf. Ibidem, p. 151.
[16] Cf. QUENTAL, Anthero do – A dignidade das letras e as litteraturas officiaes. Lisboa : Typographia Universal, 1865, p. 27.
[17] Designação de Sampaio Bruno, atribuída ao grupo de escritores que se formou em torno de Antero: cf. BRUNO, José Pereira de Sampaio – A Geração Nova : ensaios críticos : os novelistas. Pôrto : Magalhães & Moniz, 1885.
[18] BRAGA, Theophilo – As theocracias litterarias : relance sobre o estado actual da literatura portuguesa. Lisboa : Typographia Universal, 1865, p. 9.
[19] Ibidem, p. 5.
[20] Óscar Lopes e António José Saraiva defendem o seguinte: «Esta geração traz à cultura portuguesa, como trouxera a primeira geração romântica, um novo caudal de influências e de motivos. Assimila parte dela o positivismo de Comte, e, em segunda mão, alguma coisa de hegelianismo [sublinhado nosso]. Inicia-se no evolucionismo darwiniano, na crítica bíblica de Renan. Literariamente, enriquece-se com o conhecimento de autores românticos que o primeiro romantismo não assimilou: Heine, G. de Nerval, Michelet, Musset, e o Vítor Hugo humanitarista. Os seus principais mentores são porventura Proudhon e Michelet. Recrutado em parte entre os estudantes de Coimbra (Antero de Quental, Teófilo braga, Eça de Queirós), em parte fora de Coimbra (Oliveira Martins, Batalha Reis, Adolfo Coelho), este grupo vibra com os grandes acontecimentos europeus da época: as insurreições na Polónia, a crise na Irlanda, a oposição ao segundo Império na França; e choca-se com os horizontes estreitamente provincianos da literatura vigente […] As influências hegelianas são mais patentes em Antero de Quental e em Oliveira Martins»: SARAIVA ; LOPES – História da Literatura, pp. 667-668. No entanto, como mostramos acima, o conhecimento da filosofia hegeliana, tanto por parte de Antero de Quental como por parte de Teófilo Braga, não é um conhecimento ‘em segunda mão’, como afirmam os autores do trecho supracitado – é um conhecimento direto dos textos do filósofo alemão (que ambos parafraseiam ou citam diretamente – como se pode verificar, por exemplo, pela leitura das passagens transcritas dos textos de Antero e de Teófilo), sobretudo da sua Estética, em versão francesa, que nessa segunda metade do século XIX circulava pela Europa, como já referimos no item 1.3 deste estudo.
[21] Como escreve Ramos: «A razão por que Teófilo e Antero, um ainda estudante e outro bacharel desocupado, se precipitaram a insultar o velho Castilho não é difícil de compreender se se notar que as Odes Modernas de Antero tinha vendido 14 exemplares num ano, enquanto o seu panfleto contra Castilho esgotou cerca de 1000 cópias num par de meses»: RAMOS – A formação,p. 487.
[22] Cf. SIMÕES, João Gaspar – José Régio e a história do movimento da “Presença”. Porto : Brasília, 1977, p. 29.
[23] QUENTAL – A dignidade, pp. 5-6.
[24] BRAGA – As theocracias, p. 7, nota 1.
[25] Cf. QUENTAL – Bom-senso e bom-gosto, pp. 5-6.
[26] Ibidem, p. 13.
[27] Ibidem, p. 14.
[28] QUENTAL – Bom-senso e bom-gosto, p. 7.
[29] Sobre este assunto, cf. RAMOS – A formação,pp. 488-489.
[30] QUENTAL – Odes modernas, p. 160.

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