Interesse atual do conceito herderiano de CULTURA
É Johann Gottfried Herder (1744-1803) quem primeiro se liberta da terminologia do «Iluminismo» («Aufklärung») e reavalia o «conceito de cultura» («Kulturbegriff») – associando-lhe novos estratos de significação, que são relevantes para a sua compreensão nos dias de hoje. Desta forma, o mesmo termo que Samuel von Pufendorf (1632-1694) emprestara de Cícero (extraindo-o da expressão «cultura animi»«[1]), vê o seu sentido transformar-se – já não se referindo, necessariamente, a um objeto (no sentido de cultivo de algo) ou à formação (educação) dos costumes (morais) ou do espírito de um ser humano –, designando a partir de agora a totalidade das condições de vida de um Povo. Esta transformação de sentido do «conceito de cultura» («Kulturbegriff») é de enorme relevância, pois, é esta sua nova determinação que – trazendo consigo uma decisiva reavaliação do seu conteúdo significativo – permite a Herder já não ter de distinguir «entre um estado natural e um estado cultural» («zwischen einem Natur- und einem Kulturzustand») do ser humano, podendo, pelo contrário, atribuir a todos os Povos da Terra um certo grau de cultura.
Opondo-se a Rousseau e a Hobbes, Herder só é capaz de conceber o ser humano, mesmo no seu estado primitivo, como um ser social. Devido aos seus instintos serem pouco pronunciados – uma insuficiência que é compensada pela capacidade de adquirir conhecimentos técnicos –, o ser humano só é capaz de sobreviver inserido num meio social. Daí que para Herder ele se apresente como uma «criatura da arte» («Kunstgeschöpf»), por duas razões: por um lado, enquanto ser humano, a arte é-lhe «natural» («natürlich»); por outro, tendo de adquirir os seus conhecimentos técnicos inserido num meio social, é o próprio ser humano quem modela a sua individualidade – principal razão por que Herder considera o ser humano como «ser cultural» («kulturelles Wesen»). Assim, o que é essencialmente humano não é «o ser» («das Sein»), mas o «o devir» («das Werden»). Um processo que inicia com o nascimento do ser humano e termina com a sua morte, e que Herder designa por «o ‘segundo Génesis’» («der ‘zweiten Genesis’»). Diferentemente dos «animais» («Tiere»), o ser humano não se encontra dependente dos seus instintos, mas atua «segundo o seu livre arbítrio» («nach seinem freien Willen»), que lhe permite tomar opções. O que implica, aliás, a falibilidade humana – levando Herder a colocar o ser humano numa posição oscilante entre a «perfetibilidade» («Perfektibilität») e a «corruptibilidade» («Corruptibilität»). Assim sendo, o ser humano é a única criatura sobre a terra que vive em contradição consigo mesmo: traz consigo a vocação para a perfeição, mas só muito raramente a atinge. Por consequência, a maior parte dos seres humanos permitem que seja o animal a dominar neles, durante toda a sua vida. Esta luta que o ser humano tem de travar para formar (educar) a sua vocação para a perfeição resulta, então, no processo através do qual ele advém (ser) humano. É este processo que Herder resume no conceito fulcral de «humanidade» («Humanität»)[2].
[1] No contexto original em que a expressão surge – no qual o cultivo da alma (a filosofia, enquanto ética) é metaforicamente comparado ao cultivo dos campos –, escreve Cícero: «M. […] ut ager, quamvis fertilis, sine cultura fructuosus esse non potest; sic sine doctrina animus: ita est utraque res sine altera debilis. Cultura autem animi filosofia est: haec extrahit vitia radicitus, et praeparat animos ad satus accipiendos; eaque mandat his, et, ut ita dicam, serit, quae adulta fructus uberrimus ferant. Agamus igitur, ut coepimus […]» (Tusculanarum Quaestionum ad M. Brutum, II, 5, 13). Seguimos neste estudo a seguinte edição: CICERONIS, M. Tullii – Opera Philosophica. Ex editione ERNESTI, Jo. Aug., cum notis et interpretatione … . Londini : A. J. Valpy, 1830, p. 564.
[2] Cf. GRIEBEN, Fernanda Alves Afonso – Júlio Dinis, apologista da Kunstreligion: influência de uma corrente de pensamento europeu no percurso literário dinisiano). Lisboa: Universidade Aberta, 2016, p.61-62. Tese de Doutoramento. Disponível em: https://repositorioaberto.uab.pt/browse/author?value=Grieben,%20Fernanda%20Alves%20Afonso&bbm.return=1
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