O Muro
Era um muro de pedra, muito antigo, e quase todo coberto de musgo. Quando o observava, cá de baixo, parecia-me que o mundo acabava ali. O meu mundo acabava ali. E eu observava, com olhos muito abertos, essa fronteira imponente, inspecionando-a, pedra a pedra, fenda a fenda, na esperança de a poder ultrapassar pelos meus próprios meios. Mas não podia.
Do outro lado do muro, havia um outro mundo. Eu sabia-o. Era um mundo habitado por pessoas que falavam uma língua estranha, que eu não entendia, mas gostava de ouvir, como se ouve uma música bonita que nos faz sonhar.
No verão, as vozes multiplicavam-se, e os sons chegavam mais fortes e nítidos ao lado de cá. Então, era como se uma orquestra tocasse, só para mim, a mais bela das sinfonias. E eu imaginava o que as pessoas diriam umas às outras, as histórias que contariam, os sonhos que partilhariam, os mistérios que desvendariam…
“Também saberão da minha existência?”, perguntava-me. Mas parecia-me que não. Mesmo que muito o desejasse, parecia-me que era só um sonho meu, muito meu, e de mais ninguém: “Pois como hão de saber, se nunca me viram, se nunca me ouviram?”
O muro afigurava-se-me, agora, como uma fortaleza que ali tivesse sido erigida, não para me proteger de possíveis inimigos, mas para impedir a comunicação entre dois mundos: o meu, e esse outro com que eu sonhava.
Um dia, porém, sentaram-me em cima do muro.
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